quarta-feira, 19 de abril de 2017

Cedo Demais O Amor Ensurdece

Entrou sem bater. 
Quando você diz não e o não ressoa fundo em mim e acabo tonta sem entender o porquê. O porquê de tantos nãos seguidos depois de um fim. Vai ser melhor assim, eu sei, vai por mim. Foi só isso, isso e só ali sentada enquanto nem me olhava, por um outro meio, do outro lado da tela. Ocupada demais pra me ver e dizer que talvez, que calma, quem sabe, nos olhos e na pele é diferente. E o não ecoa fundo até quando?
Elena era mulher assim, expulsava da vida, mas não aturava a expulsão. Tá mais que bem demais pra voltar pra um caos que nem existiu. Nessas horas a gente para, olha e vê que o conturbado e o atacado é que agita a vida, porque insegurança é muito mais pesado. Elena era mulher de sustentar o caos dos outros, mas jamais aceitar o medo. E eu fui covarde muitas vezes e quis fugir.
Tudo tem a hora certa. Ela passou por mim diversas vezes e era como se nada iluminasse o caminho, mas o destino veio e pronto!, me colocou para reger uma orquestra que, no fundo, era muito melhor que o maestro. Aquela orquestra precisava de mim só pra ter pra quem olhar, não porque fosse necessário. Um desvio de foco da partitura. E parte tua era tudo o que eu queria ser. 
Tão cautelosa em cada pisada que já me perdia em quem era eu e quem eu precisava ser pra te fazer esquecer que tudo passou e o que ficou era amor, mas não era. Nunca foi amor o que foi sentindo. Nem perto e nem longe, só nunca. E meus medos em estragar tudo, um tudo que não existia.
Elena não aceitava os nãos da vida, quanto mais os desafios. Era do tipo "vida sossegada, sombra e água fresca", não se tentava a querer ir além porque o além era improvável aos olhos dela. Aos olhos e ao coração. Tudo muito raso, sem mundo nem fundo. Elena piscou os olhos e desfez tudo num sono profundo e devastador dentro de si. Outro mundo, outras pessoas. Ela não tinha foco, dispersava e amava a todos, no fim não amava ninguém. Creio que nem a sí sabia ainda amar.
Quando a conheci, Elena vestia sapatos vermelhos combinando com o batom e o esmalte. Não sabia ao certo que aquela mulher, mesmo parecendo tão frágil, fosse também tão sem contexto. Ela me falou de assuntos, muitos, todos os possíveis em menos de uma hora. Me contou de viagens, de casos, todos os que teve e que passaram e o quanto remoía algumas situações. Elena se afundava na cerveja e me pedia o isqueiro enquanto tagarelava sem parar. E eu ali, um ser inerte, ouvindo mas nem tanto. No final da noite borrei o batom daquela mulher.
Elena gritava, chorava, sumia! Elena não era de se confiar, pois não sei nem se ela existia. As vezes a procurava - e ainda procuro - até mesmo dentro dos armários ou tento ouvir algum sussurro perdido no espaço tempo. Inútil. Ela desapareceu quando o amor começou a surgir. Amor? O carinho, quando o carinho cresceu. E não é de se fugir disso, carinho todo mundo quer, todo mundo dá. Ou talvez só pareça ser assim pra mim, e agora sou eu quem vos falo. Não sei em que momento, em qual ponto chegamos, onde nos perdemos. Não entendo como aconteceu, não andamos tanto assim, e mesmo agora já não faço questão de entender. Confuso? Mas a fumaça, a chuva, os gritos, os choros, as acusações faziam Elena já não sumir mais do mundo, mas de mim. Evaporando aos poucos, sendo bebida em taças de vinho bom ou nem tanto, a cada suspiro e respiração profunda fui me perdendo. A gente foi se perdendo porque o caminho do oposto é assim, enquanto você escolhia o lado pra qual ia, eu corria para o lado contrário. E aí vem o problema! O problema é que eu não busquei ter Elena de volta, por ela não precisar de uma casa e por eu já não ser morada suficiente pra ela. E assim ela desapareceu em algum dia, durante a neve, do mesmo jeito que surgiu. 
Quanto a orquestra e os te amos sussurrados medrosamente durante as noites, pois bem! Eu, por medo, parti. Por medo de ser mandada embora, de desafinar uma orquestra com meu pouco dom eu parti assim, sem deixar sinfonia nenhuma que fosse, mas levando o som de cada corda de violão e o timbre de cada te amo pelo dia, porque amor nunca é demais e as lembranças sempre ficam perdidas, em algum lugar, pra a qualquer hora serem buscadas.

sábado, 14 de maio de 2016

Corro Pra Não Te Perder E Te Ter

Não era muito anormal que eu amasse e sorrisse pro sol e pro sul, mas um dia apareceu uma mulher meio alta e meio baixa, meio loura e meio morena, meio minha e meio do mundo que me tirou todos os nortes possíveis da minha vida. Eu não sabia que um mar faria tanta diferença nos outonos seguintes.

A gente tem há pouco, não se sabe quanto e nem se é preocupado em saber. A conheci numa noite por aí enquanto ela me chamava de Céu, mal sabia o inferno que minha vida andava. Foi difícil qualquer aproximação porque o espaço tempo, o espaço amor e o espaço gente-avulsa-no-mundo não permitia. Talvez nós não permitíssemos. A gente não queria aprender a sentir o calor quando é frio e a esquentar as mãos uma da outra quando já se está com os dedos dormentes.

Um dia ela me deu vinho e eu tagarelei até não querer mais. Um pouco antes eu ainda me segurava em qualquer pedaço de coisa que fosse, mas foi ali, no seco da uva que eu percebi que mergulhava nos olhos eternos daquela alma meio minha e meio ela. O nome tem mar, nos pés tem o chão e no coração carrega tudo aquilo que eu quero aprender pra vida. 

Outro dia quase a deixei partir. E quando digo quase, foi naquele limite de: ou um passo pra trás e nunca mais, ou um empurrão e caio profundo nela. Nunca fui tão rápida numa decisão. Nunca corri tão rápido parada no mesmo lugar e cheguei exatamente na hora da virada. Já não me queria sem ela. Já não sabia nada se não dizer - alto e admitindo - o quanto eu me via apaixonada por ela. Precisei contar dos outros dias e lembrar de um vão enorme que separa a minha rua da dela e precisei também calcular quanto seria possível e preciso pra que as mãos se alcançassem numa distancia tão visível, onde eu a vejo e ela me vê. 

Eu não sabia o que falar e pedi - peço. Eu digo assim: moça, não quero que não vá, peço que fique. Porque quando eu olho fixo nos teus olhos e te dou o meu abraço e enlaço os nossos corpos sinto uma segurança tão grande quanto o medo que senti antes. Não volta pro outro lado sem mim porque me deixar aqui vai fazer os dias voltarem a ser quentes e insuportáveis e a tua voz voltar a ser de longe só pela janela, como um grito que me chama bem as vezes. 

Eu tô aqui parada porque desde que tu supôs ir, eu já não quis voltar pra onde eu tava e esperei que viesse me buscar no colo, como aquele dia, pra levar pro teu mundo tão ideal. Ideal pra mim. Então olha aqui: fica. Firme e tudo aqui, na gente.

E não acabou assim, mas sim não acabando. Ela!, acorda e acorda sendo ar porque eu tô querendo te respirar como nunca. Então quando abrir esses olhos lindos e molhar esses lábios, acorda e corre aqui se for pra ser porque eu não sei por quanto tempo eu te esperei.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Despedidas E Amor - que foi - Sincero

"Quando você saiu por aquela porta
Me disse meu bem já é tarde não importa

Você também vai encontrar um novo amor"

O amor passou, o amor mudou e a gente já não sabe mais o que sentir quando a fé e o querer perdem pro medo e a desesperança. 

Eu te esperei pelo meu tempo, te esperei pelo teu - e alguém sabe? - tempo. Errei teu número, busquei teus olhos e te dei meu sorriso no ar. Pensei em gastar mais palavras e exausta acordei de todos os sonhos e abraços dados durante a noite. Tudo foi matando aos poucos a vontade de te ter por perto na carne e no sangue.


Três cicatrizes ou mais ganhas com o teu sumiço. Uma nos braços, já fartos de carregar sozinha o nosso nada; uma nos os olhos, que já te veem sem dor, mas também sem saber quem és; outro já não se vê, não se sente, não se sabe na alma. O amor sem ser amor e assim sem saber se um dia foi. 


"Você ainda pensa em mim quando você fode com ela*
E você ainda pensa em mim"

Sem despedidas, sem palavras a gente se dá as costas e continua a vida como se nunca tivesse acontecido nada, como se nunca valesse algo ou fosse alguém pra vida ou pra outra. É só silêncio agora. Talvez fosse pra ser assim e foi. Não tinha outra forma de ser feliz se não só apagar tudo como se mais fácil deixar de existir, como se não fosse importante.
Te amo sem te amar, só porque te amo agora sem te pertencer e sem te substituir. Jamais amaria igual, jamais amarei de novo do mesmo jeito, da mesma primeira vez e no primeiro balbuciar no meio da noite. Você me tirou do mundo com meu olhar triste e distante, tirou daqui e me levou pra qualquer outro lugar onde eu pudesse me aconchegar nos teus olhos, na tua cor e misturar no teu cheiro o meu. Qualquer espaço onde eu pudesse dormir com as tuas mãos e acordar entre as tuas coxas, ou beijando os teus pés. Eu não quis isso com ninguém, antes, além de ti.

Nosso amor conquistou o direito de ter defeitos. Nós nascemos, crescemos e nos mantemos, dia a dia, juntas pelo amor jurado pra sempre. O pra sempre nem sempre é eterno, mas vira lembrança latente no coração de quem soube amar.

Ai, você! Você, minha liberdade em forma de amor. Você que me mostrou que qualquer forma de amor vale amar. Você que me ensinou, sem querer, que amor se ama sem orgulho, sem pudor e sem esforço. Ai, você! Minha Rebeca, minha dor, todo o meu - e pra todo o sempre - ex amor!

"Mas, se a tua tristeza já não te faz tão bem, meu bem

Lembre da vida e dos dias que sonhei."

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Quando As Pessoas Perdem O Sentido (E Eu Os Sentimentos)

E foi assim que aconteceu: enquanto eu passava por um corredor a Paixão, cheia de sangue nas mãos me gritou: vadia! Tem que pagar pelo o que fez! Olhem esses olhos! São os olhos dela! É ela quem ilude a todos e sai de cena como se nada tivesse feito, como se coração qualquer fosse de papel. Agora todo mundo já sabe quem és, louca! Falsa! Tua máscara caiu, e fui eu quem arrebentei com minhas próprias mãos de apaixonada que teve seu amor negado.
Enquanto respingava sangue pelas minhas costas e, ao virar-me, pelo meu rosto, pude observar facilmente aqueles cachos e olhos tão redondos e desesperados. A dor de não conseguir ser o centro do mundo estampada ali, nos berros daquela moça a qual agora me pergunto: será que tanto judiei? Sem prometer, sem dizer. E então contei que.
Não vou romantizar tua dor, mulher. Não vou rebaixar ou jogar teu sentimento ao vento. Nunca disse que era puta, muito menos me fiz de santa. Sempre fui Capitu e não fugi as comparações: desde os olhos de cigana oblíqua e dissimulada, esses meus olhos que o diabo me deu, até a questão da traição. Acontece que sem filho, sem casamento e até sem ter quem trair. Veja bem! Que história amaldiçoada! Já te iludir eu nunca fiz. Nunca fiz questão de plantar amor por ti ou cultivar. Nunca te falei nada olhando nos olhos.
Agora chega perto, mulher tão desgraçada da vida. Mulher que, sem felicidade, não aguenta que felizes sejam. E escuta bem o que os meus olhos tem pra te dizer: Eu, dona de mim, posso me dar pra quem eu quiser. Se dei um pedaço meu pra ti, que tivesse feito melhor proveito ao invés de guardar a paixão e transformar em rancor. Do teu rancor agora eu só trago o meu desdém e da minha saliva um cuspe na tua face. Do meu coração a pena de existir tanta carência em ti. Tu não consegues ser o que queres, tu te pintas como querem que sejas. Se houvesse alguma dignidade em ti seria essa: apenas a de pena. Agora limpa essa mão, segue essa vida assim mesmo: toda sem ser, toda sem saber, toda um nada. Tu ainda tens muita estrada pela frente e, se Deus quiser, vais aprender muito sobre ler algo e ouvir algo.

De outra parte da história já entra Bentinho. Mas um Bentinho tão perdido que de nada sei o que falar. Se abre a boca; fala besteira. É melhor mesmo quando resolve se calar. A cada passo que eu dou nenhum é para frente, só fico nessa aqui: cansada e parada deixando que ele mesmo retroceda de onde, talvez, não deveria ter saído porque já não consigo girar meu mundo em volta dele, que continua pensando que é astro rei, - enquanto tenho já uma rainha pro meu carnaval. Acusa quem não deve, defende quem não deve. Erro atrás de erro, perda atrás de perda e medo atrás de medo. Como pesar o acovardado na mesma balança de quem dá a cara a tapa? Injusto, muito injusto. E injusta é uma coisa que aprendi a não ser. Se chamo a Justiça trato logo de tirar venda, explicar o cenário e contar em detalhes ou tatear a coisa toda, ler em braile. Já não tenho o que falar de tanta insignificância que tomou conta de alguém que um dia pensei merecer meus maiores votos. Era meu amor e me doeu tanto que já não tem porquê.
Se hoje te escrevo aqui dessa maneira, é pra que ainda um dia possa te lembrar de algum jeito que não seja com muita dificuldade, pois aqui está a forma que tu, que um dia fostes minha Rebeca, que agora és só Bentinho, ficastes pra mim: egoísta a princípio, talvez manipulável, um pouco covarde e o resto é resto.

Vão-se os amores e de nada adianta mais os lamentos. De cada lamentada que existiu, um novo amor surgiu, sem paixões loucas pra estragar, ou qualquer fruta podre que pudesse agourar. 
Que seja doce esse encontro! 

sábado, 26 de dezembro de 2015

Meus Olhos Já Não Nos Salvam Mais, Rebeca


"Vamos, vamos logo subir essa escada que leva o amor ao último andar.

Estamos descalços e o mármore gela os nossos pés. 
Sobe pelo corpo o tremor do castelo que desmorona."

E foi assim, Rebeca, que a gente se conheceu: num 14 de maio de sabe-se lá que ano, tinha muito vermelho, muito preto e muita vontade. Os dentes batendo, as mãos tremendo e eu te mirando com o canto dos olhos. Conheceu, não. A gente se viu a primeira vez. Eu recusei aquele café, corri pra pegar a sessão das 17 e pouco e aí te vi chegando devagar. Não parece nada com cena de filme, né? Tanta gente faz isso. Mas no dia anterior tu havias sumido e eu já nem pensava mais em te encontrar. A esperança nunca deve morrer mesmo.

"Então vamos, segura firme no corrimão. 
Respire fundo. Subir tão alto dá vertigem e olhar para trás deixaria-nos cegos.

Os erros são medusas intransigentes, arrancam as nossas lembranças boas e tatuam os desaforos e mágoas."

Depois vieram todas aquelas coisas de carinhos e beijos. As indecisões, os medos. Por que a gente teme o amor? A gente já começa a não se entregar com medo do tombo. Eu só queria te abraçar forte e dizer, na ponta dos pés, sussurrando no teu ouvido, qualquer coisa como: a gente se gosta, a gente pode se cuidar. Confia em mim que, mesmo que dê errado, a gente emenda e faz dar certo de novo. O amor é uma colcha de retalhos, cheia de histórias em cada ponto dado. A nossa não seria diferente.

"Para ir até o fim da paixão deve-se estar acompanhado. 
Sinta o meu perfume enquanto o vento do tempo sopra esse bafo de mudança. 
Se quiser, dou-lhe o braço."

O dia em que me buscastes na saída da aula, Rebeca! Nesses dias eu acrescentava mais um motivo pra lista dos porquês de amar a minha pequena. Eu era a mulher mais feliz do mundo em tempos escassos para o amor. E tu me segurava pela mão enquanto íamos pra casa, fazendo mil e um planos, mirabolantes ou não, mas dos mais doces e nossos. O caminho pro lar era cansativo, mas recheado de sonho.

E dormíamos, e mudávamos de posição, e saíamos, e ensaiávamos coreografias nossas – e só nossas – na balada. E eu te olhava fundo, bem fundo! E te dizia que te amava. E desde que eu consegui dizer a primeira vez, tagarelei sem fim! E viajamos, tivemos crises nervosas – eu de riso e tu de ar – dentro do avião. E depois rimos disso! Ok, talvez tu não tenhas rido tanto. E assistimos os Hermanos cantando pra gente, assim, como se fosse tudo nosso. E tu sabias lidar com a minha fome, a minha TPM, o meu copo de água com gelo ao lado da cama. E eu acordava pra te dar café da manhã e um beijo de “bom trabalho”, mesmo meio zumbi sempre. E tomávamos nossos banhos cheios de beijinhos de sabonete, nunca esquecendo de lavar atrás da orelha. A gente parecia se amar pra sempre.

"O nada não inspira, não treme os sexos, não dá calafrios, nem ciúmes; 
Não cria o ódio, nem teme o abandono. 
Ali você poderá descansar sem culpa, remorsos, sonhos estúpidos."

E aí aconteceu. Desabou dentro de mim uma lasquinha, depois outra e outra e quando eu vi os meu olhos teus já não eram mais um feliz e um triste, eram dois olhos vazios, que olhavam para o nada, buscavam nada. O que eu poderia fazer por ti? E os teus medos de ser machucada, eu despertei todos eles e disse baixinho, mas ecoou: fujam de mim! Os meus olhos são perigosos. E meu coração está doente. E então eles fugiram e eu fiquei aqui, arrependia, mas certa que era o melhor a fazer. Alguém tinha que ser feliz.

E agora existe o desencontro. A ressaca do meu mar te quer de volta, meu olho feliz, mesmo que chore, te sabendo bem fica alegre. Teu rio, calmaria, já não quer mais voltar, Rebeca. E quem sou eu? Quem sou eu pra dizer o contrário? Um mar com cor de terra, preguiçoso, vagaroso, que só queria te amar. Que só queria que fosse, que desse, que mesmo sem estrela cadente as coisas se realizassem. E tu, tão límpida, tão calma, tão decidida, e já seguindo tão em frente também já sabes o que queres.

"Amar proibido é muito. Causa tanto estrago...
E por isso, por tudo isso, vamos!
No final devo pedir perdão por tê-lo tocado."

Quando nos vermos de novo a minha cor de cabelo já não vai ser a mesma, o jeito que tu te vestes também não. Ter-se-ão passado mais de seis meses e provavelmente te encontrarei com os dedos entrelaçados aos de uma outra moça. Talvez de cabelos mais lisos que os meus, mais claros, mais alta, mais nova? Não sei. Mas 6 meses é uma porção de coisa na vida de uma pessoa. Talvez a gente nem se veja mais, vai saber? A gente não sabe do futuro.

"Agora pode largar a minha mão. Pode partir.

Lembre-se ou esqueça-se de mim."

O que eu queria dizer mesmo é que se um dia te tive alguma coisa além de amor, foi saudade. Talvez uma pitada de ciúmes. Hoje em dia um pouco de inveja de quem rouba teu tempo como eu ocupava um dia. Mas que você, Rebeca, “você foi o melhor dos meus planos e o maior dos enganos (o melhor engano) que eu pude fazer”.

"Coração quebrado tem cura: 
a paz de não precisar mais aguardar a perfeição que não existe."

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Virgo Rising - Rebeca, Não Erre Meu Signo De Novo

"Caso você queira posso passar seu terno, 
aquele que você não usa por estar amarrotado."

Estou contando os riscos na parede do quarto. Ao que tudo indica, falta pouco para fechar o terceiro mês do resto da vida. Falta pouco pra, daqui um mês, ser teu dia. Falta muito pra que eu te esqueça, Rebeca. O tempo parou, o tempo voou e eu continuei aqui, riscando fininho atrás das cortinas pra que ninguém soubesse o que eu fazia tão quieta.

"Se de noite fizer aquele tão esperado frio 
poderei cobrir-lhe com o meu corpo inteiro.


E verás como minha a minha pele de algodão macio, 

agora quente, será fresca quando janeiro."

Dois olhos cansados, dois adeuses. A palavra no plural fica tão feia que as pessoas costumam falar como se existisse um só. Eu já não te vejo há tanto tempo que tenho medo de ter esquecido do teu perfume e até mesmo do teu cheiro, tanto aquele do pescoço, quanto um outro que eu nunca falei, que ficava na região perto da cintura, um pouco abaixo, entre o ossinho e o umbigo, bem no ventre onde eu gostava de deitar e ficar te olhando enquanto me contavas alguma história. Eu te namorava por horas até tu me mandar subir porque me querias mais perto. Entre o subir e o sumir só muda uma letra, Rebeca, como a vida pode ser tão sádica? Tão perto e tão longe? Como foi que se chegou a esse ponto de preto e branco sem perfume nem volta mais? Como é que a banda, a música, os gostos e os carinhos passam a não ser, deixam de, desistem? Eu não entendo como te deixei deslizar por entre as minhas coxas assim, sem tentar te segurar, por medo que, se te segurasse, ficasses sufocada e corresses.

Já não peço colo pra qualquer um, já não ando na rua te procurando porque sei que é inútil a procura, sei que não existe a chance de esbarrar contigo. Sabe quando a gente sai ansiosa, preocupada e até querendo encontrar de alguma forma? Salta um ponto antes, faz um caminho diferente, qualquer coisa tá valendo pra que, assim, meio sem querer, a gente cruze os olhares na rua de novo e dê aquele frio na barriga que não é igual com mais ninguém mesmo que a gente tente se enganar que talvez sim, talvez seja, quem sabe logo?

"Mas quando for a hora de me calar e ir embora 
sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim."

Passei por tudo. Passei por cima, pelos lados, em volta. Fiz tudo o que me foi mandado fazer desde ignorar até tentar beijar outra pessoa e o que aconteceu? Um vazio enorme e uma estupidez sem tamanho. Sobrou aperto no peito, vontade voltar atrás, ser como tu querias, mudar tudo em mim, mudar tudo em tudo. Mas é tão difícil mudar a gente, né? Parece que dói, mas no fim dói menos do que perder um pedaço. Ou não. Depende o pedaço. Tem gente que não vale nem o esforço, nem a boa vontade. Mas eu tô aqui, me doendo até pra respirar, jogando a bandeira branca, dizendo que chega! Que pra mim deu, Rebeca! Eu não tenho mais forçar pra remar contra a maré! Então olha aqui, eu vou só deitar nesse canto e esperar inundar. Enquanto eu ainda dou pé, te escrevo. Enquanto eu ainda te escrevo, sinal de que as coisas dão pé, ou ainda podem dar. Só não esquece, pequena, que de iceberg eu não tenho nada, porque aqui tá mais pra Vesúvio. E que eu não sou de água, eu sou de terra.

"Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola, 
mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim."

Tu valias – e vale – a pena. Aliás, o bolo inteiro.  

sábado, 5 de dezembro de 2015

Apaixonar-se É Perder O Medo Do Invisível

https://www.youtube.com/watch?v=g35zS1tVO3o


Basta pensar um pouco, remexer uns envelopes, vasculhar alguns e-mails antigos e pronto: todas as memórias de poucos amores bonitos, embora doloridos, ali guardados de um jeito carinhoso e cheio de saudades num lugar sem esquecimento.

Enquanto relia os e-mails, encontrei um que dizia: como sabias que eu que as tinha enviado? E na mesma hora me veio a lembrança da cesta enorme, com muitos vasos dentro. Vasos de cíclame, violetas e tudo o que se possa imaginar. A explicação dela? Mandou por impulso, queria ganhar um sorriso meu e mal sabe ela quantas horas eu fiquei olhando pra aquelas plantinhas. E depois, quantos dias e meses eu cuidei de cada uma delas. O inverno veio, mais de um, e eu talvez não tenha dado conta de cuidar tão bem assim nem do amor, nem dos vasinhos, mas nós continuamos aqui, uma em cada estado, na esperança do quem sabe? Do – pode ser que um dia vingue? A gente já se amou tanto nessa vida, quem pode adivinhar o que o futuro guarda? – e a espera nunca termina.

Já num outro dizia: Só por favor, não desiste da gente. E dois anos depois eu desisti. Desisti porque não tinha mais a vontade de fazer alguém feliz e, sem vontade, não existe capacidade. Covarde, mesmo amando e sendo amada, desisti pra que ela tivesse o amor que merecia. Ela nunca me esqueceu e eu nunca a esqueci e até hoje, quando fica tudo escuro, ainda corro pra aquele colo que foi o único que não me deixou, que não desistiu embora eu me abrisse e, sendo clara, bem dizer transparente, mostrasse todas as insanidades que eu tenho sem omitir nada. E tive crises e xinguei e briguei e a fiz chorar e mesmo assim ela me amou. Me amou pele e osso, carne viva, cicatriz, quase morta. Me amou hematoma, falando demais o que não deveria nunca ter dito, beijando um cara na frente dela. Ela foi minha amiga, minha paquera, meu cuidado, minha namorada, minha noiva e minha mulher. Ela disse que tudo valia a pena por mim, mas cada palavra que ela dizia, era o espelho dela.

Houve uma a qual me buscava em casa e me levava até um trapiche onde a gente sentava pra ficar olhando as ondinhas. Ela me deu quadrinhos dos Peanuts com uma das páginas marcadas com uma história do Linus, livros da Frida Kahlo, Caio Fernando Abreu, maconha, ombro e muita cachaça. Ia até a minha casa só pra me ver, porque nem sempre eu tava 100%. Na verdade quase nunca. E aí as vezes ela me beijava e tudo passava. Tinha os olhos mais lindos que eu já vi, castanhos e grandes. Liguei algumas várias vezes pra ela dizendo – não quero mais ser tua amiga, nunca mais! Entendeu? – mas até hoje ela é minha virginiana preferida, que me faz falta, que nunca dormiu na minha casa, que se arrependeu de ter feito o que fez um dia antes, porque um dia depois me conheceu. Ainda bem que tem a vida toda pra gente voltar atrás e se arrepender.

Teve uma mocinha loura também, pisciana, com os olhos mais azuis do mundo. Ela vinha todos os finais de semana me ver quando eu fiquei três meses sem poder sair de casa, e aguentava a minha insônia babando no sofá da sala enquanto eu ria de algum filme bobo na televisão. Ela cantava bonito, tocava violão e achava a minha sopa a melhor do mundo! Me chamou de anjo por muito tempo. Mal sabe ela que quem foi salva fui eu. Nunca a chamei pelo primeiro nome, sempre achei o segundo muito mais meu e dela.

Aos 16 me apaixonei por duas irmãs, aos 26 por uma professora. Era assim: Sagitário, Touro e Leão. Algumas de Câncer, uma Ariana escritora, uma Ariana atoa, Peixes é o que não falta nesse turbilhão. Aquário, lembro de duas ou três que não fizeram questão de ficar, preferiram admirar a lingerie branca e a cara de ninfeta. A de Leão tinha 1,82 e namorava com a de Libra, que namorava com mais umas três além dessa e além de me beijar as vezes. Aliás, me apostou em um joguinho de fliperama.

E tem as que não lembro, ou as que guardo muito no fundo que dá até ciúmes de contar, mesmo que seja só um pouco, só um pouquinho, como foi a primeira vez que andei de avião, só pra conhecer o amor de verdade lá longe, longe mesmo, seis anos depois de já saber que ele existia, lá pros lados de Minas Gerais. 

"Tu
que tens um nome,
tu que tens uma identidade,
Amo-te um amor indefinido."