terça-feira, 3 de outubro de 2017

Olívia E Todo O Depois De Ser

Basta um dia de chuva pra que toda cicatriz doa. Tem gente que escolhe a vida, e se chove ou faz sol, há. O que me foi dito hoje, Olívia, era mais ou menos isso. Tudo tinha um certo remetente e eu fazia um esforço danado pra não deixar ir o que nem veio, mas nem todos os meus amores conseguiriam alimentar o eco que faz quando seu ego clama - Eu não nasci pra isso.

Dentro de mim escuto barulhos que me tiram do eixo, aquelas vozes que não me deixam dormir um dia sem abraçar o travesseiro e pedir, baixinho, que tudo passe. Enquanto antes, bem pouco antes, eu era silêncio. Angel without wings eles diziam, de tão apaziguadora e silenciosa era o ser, enquanto não sabiam quantos demônios eu alimentava dentro de mim. Não, Rebeca, não por medida de precaução, não para impor barreiras que nunca mais viessem a ser derrubadas de novo, não por sadismo. Simplesmente nunca desejei que o dia depois de hoje viesse e trouxesse um outro alguém.

O dia depois veio. E mais uns tantos outros. E mais uns tantos ecos e noites e travesseiros. Agora você me doía, eu me doía. Já não queria mais olhar pra trás e ver o erro se repetindo a toda hora, e já não via motivos pra não desistir. Continuar sem fé alguma? Não em Santo nem em Cristo, mas que se tenha crença ao menos na gente. Foram tantos dias de sangue em cálice e ressaca divina no seguinte que eu já não sei mais o que é sobriedade.

O tempo passou, a gente não mudou. Não há diferença, apenas tantas! Todas! Todas as formas que nos afastam. Já não acredito mais em promessas e o eterno me parece tão distante. Sempre o mesmo erro, sempre a mesma mágoa. Um amor cheio de espinhos. Um amor tão frágil quanto um balão a gás. Num coração cheio de farpa. Eu fui cansando de todas as noites ser deixada, e não deixava porque você não merecia, não merecia passar por tudo de novo, tão nova! Mas e eu? O que eu passei, já tão madura. Madura? E ainda segurando mundos pra que o de ninguém caísse, mas o meu tá no fundo do inalcançável tem tanto tempo que a gente nem sabe como chegar até lá e resgatar. É interessante só saber o superficial das pessoas, não é? 

Eu desisti. Foi em um dia assim de chuva: eu acordei, respirei um pouco, as coisas foram saturando ainda mais, meus punhos cortados da semana passada, meu sangue escorrendo manchando o lençol. Talvez seja mesmo, como falaram um dia, falta de merecimento de felicidade. Eu fechei as abas, cancelei o voo, a vinda. Eu não queria mais estar ali, vivendo aquilo, porque eu já não vivia. Ninguém se vivia. A  cada entremeio de conversa uma surpresa ou uma autoafirmação, sua, minha, eu já não sei mais e nem importa. O amor não morre quando não nasce. Logo eu, tão acostumada com tudo sendo abortado cedo, com perdas prematuras, até chorei um pouco enquanto escrevia. 

O mundo não é injusto, ninguém vai morrer, amanhã as temperaturas vão amanhecer as mesmas aqui no meu mundo e aí no seu. Uma fala tipicamente sua. Você vai se reerguer mais forte. Suas musas ainda irão existir, seus homens ainda irão te querer. Nava novo sob o sol. O mundo acaba por um fio, por um triz. O amor - QUE AMOR? - acabou por um som de giz arrastando no quadro negro. E nasceu? E chegou a ser? 

De partidas são feitas as vidas, e que sorte a minha de te conhecer pra que um dia saiba que existisse e és palpável, mas sem certeza alguma vou, para além do que poderia ser o óbvio amor que dói e queima sem querer. De cá já não aguento mais dormir com os passarinhos cantando. E sigo. Seguimos. Sem desculpas, sem abraços e nem despedidas. Seguimos como entramos: como uma surpresa que não se imaginaria acontecer. E anulamos o acontecido como contrato rasgado, peito aberto e aperto de mãos. Apenas estranhos, em momentos esquisitos, compartilhando dores de um mundo banal.

(Fecho os olhos e já não quero mais que me lembrem. Porque não quero ter, não quero ser nem ter feito. Não quero.)


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