sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sobre a Água (Um texto que não merecia ser publicado)

"Por céus e mares eu andei

Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor assim falou


Me olhava no espelho enquanto repetia, devagar e com um leve déjà vu: eu sou terra, ela é água. Enquanto me molha, eu a sugo. Não posso viver sem o que me mantém vivo, o que não me deixa secar. Eu sou terra, ela é água. Eu sou terra, ela é água.
A conheci num desses cafés modernos. Pedi um chá, faz tempo que não tomo café e tenho medo de arriscar. Eu já sabia o signo, sabia o nome, mas nunca tinha visto um jeito tão tímido de andar. Até o nome era excêntrico - sempre gostei e cultivei perto o diferente - fora a idade, muito mais baixa que a minha. Eu me sentia um poeta com a sua ninfeta, exibindo-a como se fosse minha - e não era. Me vi nervoso e pequeno perto de mãos tão delicadas e gestos tão bonitos. Seres de água acabam comigo. 
Ela era leve. Leve e doce como o café que havia pedido. O meu chá era sem açúcar - mar-há-já, não posso esquecer. Paralisei durante um tempo depois do oi se graça. Tive que tirar do fundo alguma coisa pra falar que não fosse sobre as tragédias da minha vida, ao menos não tão logo. Esperei ela se acostumar com o meu jeito estranho, e acho que estou esperando até hoje.
Se eu fosse descreve-la, não conseguiria. Prestei muita atenção no azul da camisa, nos cabelos escorridos e nos olhos, mas ela gesticulava e eu falava olhando pro outro lado da rua pra não me entregar. Eu percebi que ali não havia urgência e nem jogo de conquista. Eu tinha acabado de conhecer o amor? Mal sei se isso existe, quem dirá ela? 
Atropelei tanto as palavras que não lembro mais o que falei, mas não esqueço de detalhe algum do que ela me falou. Os caranguejos são perigosos e não sabem; são piores que escorpião porque não existe veneno, mas existe o fim - pensei enquanto analisava o tempo. Chovia.
Não poderia dar à ela agora, de imediato, um apelido. Passaram-se semanas e ainda não consegui imaginar do que chama-la porque não vejo motivos pra não ser pelo nome forte e bonito. 
Sei que, certa noite, embriagada, nessas modernidades de manda-aqui-recebe-ali, ela me mandou uma mensagem: estou com tesão. Você nunca espera que a água escorra assim pela sua frente. E logo depois disse: vou dormir. E foi. Eu tenho odiado a tecnologia. 


"Amores sempre vem e vão, mas nunca vem em vão."

É engraçado essa parte de encontrar e desencontrar, como que sem querer e talvez sendo sem querer, porque eu não estava procurando, algumas pessoas que mudam nossas vidas. Já encontrei diversas almas gêmeas momentâneas. Digo isso porque a metamorfose, o passar do tempo, muda as pessoas. Aquela que andava de bata e dormia largada ao meu lado, hoje se impõe de batom vermelho e pensamentos nada altruístas. As vezes eu penso que parei no tempo ou que preferia ter parado para não perder certos momentos. 
Voltando a parte do encontro e da perda: perda? Não se perde o que nunca se teve, não é isso o que dizem? E mais: se eu desejo que permaneças, eu farei de tudo pra que aconteça. Eu te aceitarei do avesso, e te amarei mesmo que de outro jeito ou país. Eu te amarei sem posse. Eu te amarei e fim. 
Agora lembro que havia prometido à mim mesmo que, ao falar nela, não falaria sobre amor. Ou talvez falasse enlouquecidamente, sem pudor, como se fosse meu último discurso antes da morte, para depois queimar esta carta que ela jamais leria. Mas que dor seria a dela de priva-la de palavras tão sinceras e, por ora, sem sentido? 
O ser de água. Não é peixe, sereia, ondina. Não é venenoso, mas machuca. Eu sou letrado nas águas e nos que são feitos dela. E se parar pra pensar, o que faço muito, eu sei que muito provavelmente eu vá me apaixonar pelo jeito engraçado, doce e sútil. Pela forma que demonstra desinteresse por querer atenção. Talvez eu chegue a enjoar. Talvez não. Pode ser que ela me toque fundo, que ela me sinta também. Que talvez me queira. Pode ser que nunca mais nos vejamos. Pode ser tanta coisa. A terra nunca tem certeza absoluta, mas muitas suposições.
Eu queria mesmo era tirar esses tantos "eus" que são tão fogo, tão egocêntricos, e colocar ela todinha aqui. Ela, a água que me inundou num dia de chuva. Ela, que se parece tanto comigo na idade dela e que talvez resgate isso em mim. E que talvez, quem sabe, ela me faça feliz, mas não tanto quanto eu a farei só para ver os sorrisos dela. 
Sabe o que eu ainda não a ouvi fazer? Gargalhar. Penso que isso só se consegue com o tempo. Fazer alguém gargalhar até chorar e dizer que está com falta de ar e a barriga doendo tudo assim muito rápido enquanto a voz não sai direito. Espero isso: arrancar muitas gargalhadas bobas dela. E que ela toque violão pra mim, e me faça desenhos e esculturas - tudo muito esquisito, mas que eu sempre vou dizer que estão lindas - para que eu enfeite ainda mais meu apartamento. Ela é artista. Hoje em dia eles dão uns nomes diferentes pra cada artista de cada "área" em que trabalha. Pra mim é artista e ponto. 
Agora eu digo, com um leve sorriso no rosto, mas com uma falta imensa no coração que não posso me permitir escrever um final, porque quando pensei em começar isso, eu não tinha nem um começo. Não rabisco finais pra o que ainda não começou.
Era um texto sobre a busca do amor, mas eu só consegui pensar em uma coisa: 

O amor é o carinho
É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor"

3 comentários:

Anônimo disse...

Sempre incrível, sensibilidade de um anjo, a tua.

Luís Gustavo Brito Dias disse...

- tenho a mesma impressão sobre arrancar gargalhadas... E sobre signos de água, rs.

PS: Bianca, que bom que encontrei teu blog. Havia muito que não lia algo que me identificasse.

Voltarei mais vezes, com certeza.

grande abraço, Gengibre.

Desérticas disse...

divinamente doloroso