terça-feira, 9 de julho de 2013

Pupilas do Abandono

Olhei fundo nos olhos dela e tive força pra dizer: tu não sabes mais nem quem és ou quem eu sou. Ela balançou a cabeça. Não sei se concordava ou era um ato de negação, de reação, querendo me dizer que ainda estava ali. Tentei a colocar pra dentro, ela não quis. Acendeu dois ou tres cigarros seguidos em silêncio, daqueles constrangedores. Deitou-se ao meu lado já cansada de pensar e pulsar. Olhando pro nada me disse: sabe quantas vezes pensei em rasgar as jaulas e pular pra fora? Espantado não soube o que responder. Ela continuou: perdi as contas, não sei. Já nem sei mais quem eu sou. Tudo o que havia resgatado se perdeu. Você já chegou a perder algo que havia demorado muito a resgatar? Eu não.
Tentei me aproximar, como se não percebesse ela se esquivou. A beijei as mãos e pedi que ela falasse algo. Mais perdida ainda ela disse: depois da desilusão da morte certa por remédios, não acredito em mais nada nem ninguém. Já não consigo amar, já não sinto. E não sentir é a pior dor que alguém contrai. Assim. Como uma doença. Eu contrai o não-sentir, o desgosto pela vida. Meu melhor colo são os psicotrópicos. Meus melhores amigos os livros. As pessoas me sugaram até a última gota. Já não sou mais eu e nem ser socorrida de mim eu quero. Mas saiba que eu sei: nem tudo acaba aqui. Ao final de longos dias eu vou acordar e querer abraçar o mundo ao qual eu terei que refazer todo de novo. Novas pessoas, que não sabem das minhas loucuras. Novos lugares, que não viram os meus vexames. Novas vontades. Novos remédios.

9 comentários:

Anônimo disse...

Eu, que conheço tuas loucuras, descobri ama-las, assim como amo cada parte, cada pinta, cada maneira de sorrir. Posso te ajudar a achar remédios novos, e novas distrações, se você me deixar ficar.
Eu te amo, a sua!

Anônimo disse...

Incrivelmente carregados esses seus textos... Não há o que tirar nem pôr de cada palavra, assim como de vc, pequena princesa, que se deixa ser completa por si só.

Anônimo disse...

Acho que seu blog deveria ser atualizado a cada segundo. Só acho, sabe!! Linda!

Anônimo disse...

Não há como não esperar ansiosamente pelos seus textos... Sdds de tê-la acrescentando tantas palavras e beleza no meu dia, e olha que sequer te conheço, imagino o privilégio ainda maior de quem a conhece. Beijos, dona Bibi.

Anônimo disse...

O bom mesmo é poder contemplar um pouquinho de ti em cada um desses textos... Talvez seja por este motivo que são tão fascinantes, pois guardam um pouco das palavras do seu coração. Sua maravilhosa!

Anônimo disse...

Que palavras tão ricas são essas? Como vc é suave e ao mesmo tempo extraordinariamente marcante ao escrever, dona Bibi... Coisa linda de se ver, de se sentir... Sou fissurada em tudo isso que vc diz aqui.

Bianca B. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariana T. Magalhães S. I. disse...

Fantástico! Foi possível entrar em cena como terceira pessoa e assistir tudo ali, sabe? Que lindo seu dom artístico, Bia!
Deu pra sentir e viver tua arte. Parabéns.

Mari.

aaluah disse...

meu deus, quanto eu tem nesse texto (vê meu 'de cartas nunca enviadas') e nem tinha visto isso aqui...